Lembranças da Juliana Silveira

Querid@s,

Há algumas semanas, precisei atualizar minha agenda de contatos no telefone, e achei o número da Silvia. Reli nossas últimas mensagens. No whatsapp, eram direções para ela chegar na minha casa nova em Curitiba. Ela veio trazer meu gatinho Frodo, o último que tinha ficado pra trás na mudança, na casa da minha mãe, porque as cias aéreas não deixam trazer mais de um por passageiro. Ela me ofereceu essa gentileza e aproveitei. Minha mãe teve a oportunidade de vê-la. Apenas aquela única vez no aeroporto de Brasília, no dia em que foi entregar o Frodo pra ela. Ficou encantada com a Silvia. Mas quem não ficaria, né?
Eu fui encontrá-la no aeroporto pra buscar o gatinho. Sua irmã a estava esperando e nos separamos. Mas combinamos de ela ver minha casa nova. E ela foi. Ela adorou o pequeno apartamento. Ainda fazia sol aqui e ela foi até à varanda e disse: “Dá pra ver a Serra do Mar! Que lindo!” as montanhas azuis ao horizonte. Ela se sentou numa poltrona linda que tem lá em casa e eu até hoje gosto de imaginar a gente ali na sala, conversando, olhando onde ela se sentou. Lembrando de muitas conversas que tivemos e do quanto ela me ajudou nesta existência.
E daí foi procurar nossos emails. Uma de nossas últimas mensagens foi um pedido dela por uma música espírita que eu tinha gostado muito de ouvir quando fiz tratamento na Comunhão Espírita em Brasília e tinha enviado pra ela ouvir também. Os trabalhos começavam com essa música. Me acalmava na hora e eu caía no sono. Assim eles faziam os passes nessa “UTI” espiritual… o link que eu tinha mandado pra ela tinha sido retirado do YouTube e ela me pediu pra enviar outro. Eu não tinha podido. Era dezembro e o processo de remoção ia em tempo récorde. Eu nem tinha conseguido alugar o meu apartamento em Brasília nem em Curitiba… tinha de deixar os processos concluídos ou encaminhados em Brasília… vida de perna pro ar… e esqueci de mandar o link pra ela…
E hoje, busquei a música. É esta aqui: https://www.youtube.com/watch?v=B_f-yxOHFtw
Sei que onde ela está, ela está vivendo como nessa música. E pensa em mim com o carinho e o cuidado de sempre!
Corações ao Alto, amigos!
Um abraço fraterno,
Juliana

Mensagem da Juliana Silveira

Há um trecho de uma peça de Shakespeare, “Os Dois Cavaleiros de Verona”, que diz:
“What light is light, if Silvia be not 
seen, What joy is joy, if Silvia be 
not by? Unless it be to think that she 
is by And feed upon the shadow of perfection.
…except I be by Silvia in the night, 
There is no music in the nightingale. 
Unless I look on Silvia in the day, 

There is no day for me to look upon.”
“Que luz é luminosa, se Silvia não é vista?
Que alegria é alegre, se Silvia não é  está?
A menos que se pense que ela está,
e viva pela sombra da Perfeição.
Se eu não estiver com Silvia à noite,
não há música no rouxinol.
Se eu não vir Silvia à luz do dia,
não há dia para ser visto.”
O Amor triunfou, Silvia. Gratidão eterna.

Mensagem da Isabel

Venho aqui deixar minhas palavras sobre Silvia para Iana e Larissa:

Conheci seus pais na Escola Parque, em pouco tempo percebemos coisas em comum: morávamos no mesmo bairro, éramos casais que fugiam dos padrões, tínhamos escolhida a mesma Escola para nossas filhas e eu também tinha uma Larissa em casa. Alexandre, muito inteligente, levantava questões mobilizadoras nas reuniões e Silvia trazia sempre uma serenidade com o sorriso nos lábios. Certa vez encontrei Silvia na praia brincando com a Larissa dela e eu com a minha, foram horas de conversa boa sobre as nossas princesas. A cumplicidade e a confiança sempre existiram e de forma  recíproca. Iana amiga de todas as horas e ‘minha’ Larissa ganhava duas irmãs. Sinto muito  tudo o que aconteceu, quero dizer às duas que terão sempre meu colo quando precisar.

Com muito afeto,

Isabel.

Agradecimentos

Gostaríamos de agradecer a todas as mensagens de lembranças e carinhos que chegaram nas últimas semanas. Tem sido um período muito intenso e cada mensagem nos dá força.

Agradeço também (novamente) a Sarah, por toda a força e atenção em ajudar com o blog, e pelas mensagens.

Quem ainda quiser enviar mensagem, sinta-se livre.

Novamente, obrigada.

Iana e Larissa

Mensagem da Alice

Amada Silvia,

Ainda estou tentando entender que você partiu… é tão complicado…

Não quero falar de Deus porque se Ele existe, quem sou eu para dizer o quê Ele estava pensando? E quem sou eu para tentar assegurar aos seus que tudo faz sentido?

O quê posso dizer é que você já faz muita falta e fará mais falta ainda. O quê posso te dizer é que sua vida, como a de todos, é um exemplo de vida… com coisas maravilhosas que fez e com alguns erros também. Porque todos erramos e ainda bem que não somos perfeitos (que vida sem graça seria se tudo fosse sempre perfeito). Mas o bonito dos seus erros é que você os olhava de frente e os admitia e tentava fazer melhor depois. Nem todo mundo faz isto. Verdade que nem sempre percebemos rápido que erramos. Mas mesmo anos depois, quando eventualmente percebemos, quantas pessoas vão ver as outras e dizem: Eu percebi que há X anos atrás eu errei e te peço desculpas. Quantas fazem isto? Eu conheço centenas de pessoas e conto nos dedos das mãos quem faz isto: e você fazia.

E quantas coisas maravilhosas fez… seus colegas de trabalho já tem falado aqui, então ao vou adicionar… Mas quero falar de outra coisa: como amava os seus. Suas meninas… elas foram a luz de sua existência… você as banhava em amor sempre. Muita gente é assim com recém nascidos, criancinhas, mas à medida que crescem, a demonstração de amor (pública) muda. Você não… Tem quem diria que você não as deixava crescer com tanta atenção e carinho, mas não era isso. Era preciso ter uma visão muito rasa para não entender: você sedimentou um amor profundo e estável na vida delas, um sentimento de pertencimento, um saber que o universo inteiro pode mudar, mas seu amor estaria sempre lá. Tantas crianças crescem sem ter certeza do amor dos pais e isto sendo um sofrimento…. Não as conheci, mas imagino que deste sofrimento (já que infelizmente não podemos poupar nossos filhos de tantos outros), elas não devem ter tido.

Quando penso no Alexandre, homem maravilhoso com quem compartilhou tantos anos e com quem teve suas meninas, penso na mesma coisa. Quanto amor você teve por ele, como foi bonito e importante, quanto apoio deu a ele no caminho todo. Mesmo quando o amor transmutou, vocês seguiram juntos ainda alguns anos. Mesmo quando a separação veio, você continuou a o amar. Mesmo quando ele não quis mais contato, você continuou a o amar. A maioria dos divórcios que nossa geração viu, foi cheia de destruição pública uns dos outros. Você não fez isto. Quem vê de longe, acha que é porque você foi viver com outrem e estava “errada”. Mas quem conhecia vocês dois, sabe que a história era mais complicada, que em toda relação que se desfaz, que em todo amor que se transmuta, os dois são responsáveis. Quando você foi publicamente atacada e criticada, que fácil teria sido dizer suas razões mais profundas, comentar aonde você sofreu sorrindo (para proteger a família), mostrar que não havia vilã/vilão ou vítima. Mas você se calou, aceitou graciosamente muita gente julgando errado, julgando de modo raso, te atacando, aceitou o título de vilã, não por o ser, mas porque aceitar isto, evitava causar mais dor para todos os envolvidos. Você poderia depois de algum tempo mandar todo mundo ao espaço, seria legítimo. Mas não o fez. Você aceitou toda a responsabilidade, pelos seus erros e até os dos outros.

Quando começou a viver com o Silvio, foi a mesma coisa. Como foi criticada, como foi mal compreendida. E você aceitou o mesmo rojão, a mesma crítica pública, do mesmo modo. Nos dois casos, você não pensou em si, mas nos outros. A ironia é que foi ao mesmo tempo em que era acusada de ser egoísta…

E você o amou profundamente. Você esteve com ele num dos piores momentos da vida dele (quando perdeu sua primeira esposa) e o acompanhou em transições dificílimas (com a família) e o amou do mesmo modo profundo, estável, determinado com o qual amou a todos os seus. Muito foi dito sobre o luto dele e da família. Imagino que isto tudo não tenha sido sem dor. Mas o quê fez foi o amar, amar os dele. Novamente é complicado de ver de fora, mas são coisas distintas: o luto por um ente amado e o amor de outra pessoa que traz vida e doçura.  Quem o conhece, sabe quanta felicidade trouxe neste período tão árido e como a vida dele foi mais bonita nos últimos anos por que você estava nela. Você também o banhou em amor. Você também banhou os dele neste amor.

Amada Silvia, não estou aqui dizendo que tudo que fez foi bom e correto e justo. Mas eu também não sei o quê teria sido, cada um tem sua opinião e respeitar o tempo de cada um (já que os processos são tão distintos) seria virtualmente impossível. Estou apenas dizendo que você amou como ninguém. E este legado que deixa é o quê é o mais difícil para os seus. Este vazio da sua presença amorosa constante. Possam todos os seus serem banhados de amor alheio para compensar um milímetro do amor que os dava. Possamos todos aprender a levar a culpa toda, se isto significa não machucar mais os que amamos. Você é um modelo inusitado às vezes, porque teve seus erros sim, mas tinha uma intenção boa e precisamos olhar mais profundamente para entender que o fio condutor foi o amor. Possamos aprender com seus erros e acertos e sermos todos melhores.

 

Alice

Mensagem do Henrique

Querida Madrinha
Quanta saudade…sempre me lembrarei de quando você gentilmente se ofereceu para ser minha madrinha de batismo lá em Curitiba. Esse era o meu sonho e graças a você ele foi realizado. E, como minha madrinha, você foi sempre presente na minha vida com muito carinho e atenção. Sentirei muito a sua falta e que Deus abençoe a todos nós incluindo o meu querido padrinho Junior.
Henrique.

Mensagem da Catarina Cabral

Dia desses lembrei que eu e Sílvia temos o mesmo tipo físico (altura mediana, brancas e galegas de cabelo liso) e que muita gente nos confundia.

Uma situação que achei muito engraçada foi quando pouco antes de Iana nascer, fiz pela ASPAN junto com Alexandre, à época marido de Sílvia, uma visita ao zoológico do Recife. Durante a visita o diretor do Zoo olhava para mim, olhava para Alexandre, olhava para mim, olhava para Alexandre, até que no final ele perguntou: ela já deu a luz? Sílvia ria muito dessa história e de outras confusões que ocorriam no dia a dia com as três-mulheres-de-Alexandre: eu, a própria Sílvia e Adélia, outra galega só que com olhos azuis.

Não, não é fácil escrever qualquer coisa neste momento, mas está sendo um belo exercício de desapego. Pois é, meninas, o riso fácil é mais uma característica de Sílvia, somando a tudo o que eu já li sobre ela até agora sem dúvida forma a expressão de quem ela foi.

Um beijo de quem amou muito a sua mãe e seu pai!

Catarina Cabral

Mensagem do (monge) Irmão Guilherme

 

 

Paz!

Expresso aqui meus sentimentos pelo falecimento da Sílvia.

Eu a conheci aqui no mosteiro, quando fui honrado com a presença da Sílvia e do Sílvio por ocasião de meus votos solenes, em agosto de 2009. Já se passaram quase sete anos desde aquele encontro, mas me lembro da Sílvia como se tivesse me encontrado com ela ontem mesmo. Me lembro dela com muito carinho.

O mais importante nesse momento é a certeza de que agora ela está em ótimas mãos; mas a saudade de quem fica sempre fala alto nesse momento. E é bonito que seja assim! A vida tem sua beleza, e a passagem dessa vida para a outra também tem. Tudo tem o seu tempo, e Deus  é o Senhor da vida e da morte. E Ele sabe o que faz; essa é a nossa certeza e o nosso consolo.

Estaremos unidos em oração, de modo especial durante a missa de sétimo, esta noite.

Um grande abraço a todos,

Irmão Guilherme (Mosteiro Trapista)

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